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uma albarda

por Zé Varela, em 06.08.22

 

    — Mãe, compre-me aquela camioneta. — e apontava para uma camioneta de lata na montra do senhor Loução. O que ele queria mesmo era um buldózer. Desde que tinham começado a surribar a terra do Baltazar não largava as máquinas. Quando fizeram uma reparação de fundo no D6, mesmo ali debaixo das alfarrobeiras grandes, ele mal comia para ir para lá a correr. Quando lhe perguntavam o que queres ser quando fores grande, ele quase gritava: serralheiro!

 

    — Brrrrrr! Que frio! — a Dona Carminho Mendonça entra na loja a fazer que bate o queixo.

    — Senhor Sousa, há algumas novidades?

    — Agora nada, mas lá para Janeiro espero receber muitas.

    Dois dedos de conversa com as manas Tavares, que passam lá quase todas as manhãs.   Uma espreitadela para a rua de vez em quando.

 

    Henriqueta puxa o filho pelo braço.

    — Compro manteiga de vaca. Não queres?

    — Quero! Quero!

 

    — Dona Carminha, está aqui aquilo que pediu ontem à minha patroa. — a rapariga assoma à porta e estende um envelope fechado.

    — Piedade! Quantas vezes tenho de te dizer que não sou Carminha, sou Carminho?

    Abre o envelope: “Amanhã às 11 horas”.

 

    Manteiga de vaca é um luxo raro. Cem gramas, embrulhada em papel pardo, de tarde em tarde. Mas sabe tão bem! Quando alguma das vacas está criando, a mãe também aproveita a gordura do leite e bate com sal. É cá um sabor! As vacas são de trabalho, daquelas ruivas de cornos grandes. Dão pouco leite, mas muito forte. Já quase não há trabalho para elas, mas o patrão diz que uma quinta tem de ter uma junta de vacas.

    — Senhor Loução, quero adubos para as chouriças.

    — Quantas arrobas?

    — O meu Joaquim diz que umas oito... e pese-me também cem gramas de manteiga de vaca.

 

    — O meu marido diz que no banco, de há uns tempos para cá, é uma vergonha. Aparece gente a querer depositar dinheiro, que ainda há pouco tempo os víamos aí virem à vila com uma mão atrás e outra à frente.

    Dona Carminho já não tem pressa. Entretém-se à conversa com as manas e a Dona Guida que às vezes vem ajudar o marido na loja, mais até para espairecer.

    — Atrás de tempos tempos vêm, Dona Carminho.

    — A gente sabe que é assim, senhor Sousa, mas não sei onde isto irá parar.

 

    — Se Deus quiser, para o ano que vem já pode ser que se tenha dinheiro para a camioneta, Carlos, se a sementeira correr bem. Mas até lá não temos. — uma lágrima, mas também uma esperança.

    — E uma buldózer!

    — Logo se vê.

    Com o regadio da barragem já alguns se vão equilibrando. Ainda o que vale é que o patrão diz sempre que sim:

    — Senhor Antunes, o que dava agora era surribar aquele bocado de nata do outro lado da ribeira e plantar tomateiras enquanto as árvores crescem. Dá boa sementeira pelo menos por uns três anos.

    — Faça senhor Joaquim, faça! Como você fizer está bem.

Os feitores da casa não gostam nada, sentem o seu terreno ameaçado. Nem os feitores nem o filho do senhor Antunes.

 

    O marido da Dona Carminho é gerente do banco, do único banco da terra. Ela até gostaria de ter um emprego, para não se aborrecer tanto. É verdade que não tem mais do que a quarta classe, mas poderia montar uma loja.

    — Tu não precisas de trabalhar. E demais, o que iriam dizer as pessoas? A senhora do gerente do banco a trabalhar?

    Na verdade ele acha que uma mulher apresentável como ela não seria muito seguro trabalhar fora, em contacto com outros homens. A carne é fraca, nunca se sabe. Ainda por cima com menos quinze anos do que ele.

 

    Descem a rua dos advogados. O Carlos tem que empregar habilidades de equilibrista para se segurar com as botas cardadas na calçada de pedra oleosa.

    — Senhor João, hoje quero pouca coisa. Massa, arroz e açúcar.

    — Pois, vocês agora já têm lá mercearia e esquecem-se de quem precisaram.

    Henriqueta engole em seco, pois algumas vezes tinha precisado de comprar fiado. Não muito, diga-se em abono da verdade. Mas não gostou nada de que lho atirassem à cara, não está habituada a isso.

 

    A Dona Carminho morria de tédio nesta vila, ela que vem duma terra não muito, mas um pouco maior. Isso não escapou ao Dr. Taborda, advogado de renome na praça. Encontram-se de vez em quando em casa da Dona Eugénia, viúva de há muitos anos e patroa da rapariguita de há bocado.

 

    — Carlos, agora já só falta ir comprar o cotim para as calças do teu pai, que já não tem nenhumas que não pareçam o mapa de Portugal.

    — O mapa de Portugal?

    — Sim! Cheias de remendos. Quando fores para a escola logo aprendes o que é o mapa de Portugal. Aproveito e com o dinheiro dos ovos compro também uns oitenta centímetros de chita para fazer uma saia para mim. E depois vamos esperar a camioneta da uma.

 

    Na loja continuava a conversa animada, agora tinha-se juntado também a Dona Elisete, esposa do Dr. Delegado do Ministério Público.

    — Uma pessoa já não sabe o que há-de usar que as pobres não usem. — e a Dona Carminho não via os sinais que o senhor Sousa lhe fazia apontando o queixo para a porta por onde Henriqueta entra com o Carlos pela mão.

    — Uma albarda, minha senhora. Compre uma albarda! Que isso as pobres não usam!

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