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o fanático

por Zé Varela, em 05.08.22


    A Dona Leontina de Jesus tinha passado a tarde a pintar, por sua alta recreação, empoleirada numa mesa, o tecto da sala de entrada da casa da filha. No momento em que se preparava para descer para cima da cadeira abre-se a porta.
    — Velha do ca... — grita o genro quando vê o tecto pintado de verde. Nem se ouviu o resto da frase por causa do estrondo. A Dona Leontina ao virar-se perdeu o equilíbrio e veio ao chão derrubando tudo o que encontrava pela frente.
    Quando a vizinhança se apinhou à porta o que viu foi ela no chão a agitar o crucifixo com a mão que ainda mexia:
    — Vai-te embora, Satanás! Vai-te embora, Satanás!
    E o Chico da Luz, o genro, debruçado sobre ela a tentar levantá-la e a gritar:
    — É castigo! É castigo.
    Um braço partido pelo úmero e um olho à belenenses, que me perdoem os meus amigos belenenses, que são muitos e bons, pela comparação.
    A manchete do jornal no café da Tia Guilhermina no dia seguinte dizia:
    "Benfiquista fanático agride violentamente a sogra em mais um caso de violência doméstica".
    E acrescento eu, é o que dá tentar escrever uma frase que exemplifique o uso de "descer para cima".

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