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escrevinhadelas

tudo o que publico neste blogue é de minha autoria e tudo é ficção

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04.07.22

    O que eu mais gosto no dia da morte de porco é quando vou levar uns pedacinhos de carne fresca aos vizinhos. Não sei, lembro-me de quando somos nós a receber. No dia da morte de porco, e nos dias a seguir, até as chouriças estarem enxutas, bem como me enjoa a carne, aquele cheiro que está por todo o lado. Mas quando já passou esse cheiro e somos nós quem recebe, ui!, como sabe bem!

    A parte do porco de que mais gosto é o presunto. Em fresco é da cachola. Da cachola e do sangue, quando fica com muitos buraquinhos. Os bofes não consigo comer, acho mole, parece borracha. O rim bem como me amarga. Os torresmos só consigo comê-los dois ou três dias depois de fritos, e quando ficam muito torrados também não aprecio. O meu pai gosta muito dos de riçol, lá em casa só ele gosta. A mim bem como me sabem a tripas.

    Levantei-me muito cedo, ainda de noite. Gosto de ver o meu pai acender o lume para dar fogo aos tojos. Os homens foram chegando ainda não se via. Foram-se juntando à volta do lume. Esfregam as mãos e passam-nas de vez em quando por cima das lavaredas.

    — Moços, aqueçam bem as mãos antes de pegar no bicho, que com esta geada qualquer descuido faz logo um arrepelão na pele. — avisava o meu pai.

    O senhor Aldemiro foi o último a chegar. Ele mora no Vale, de lá aqui a Santana da Charneca, pela estrada nova, ainda são bem uns quatro quilómetros. Veio na bicicleta a motor, uma Zündapp de três. Foi encostá-la à parede do eirado da cisterna e eu fui atrás para a ver bem.

    — Jaime, tem que se ter muito cuidado com as faúlhas. Aqui já fica à abrigada. Quando o teu pai te comprar uma mota já sabes que gasolina e fogo não se dão bem. Sempre lá longe. — ele gosta muito de se meter comigo, e eu gosto muito dele. Ele diz coisas que mais ninguém diz, e gosta de me ensinar, mesmo na brincadeira ensina.

    Ele esteve na tropa com o meu pai. É guarda-rios, mas não usa farda, anda sempre vestido como os outros homens. Nem sei o que é que ele guarda, a ribeira precisa de ser guardada? Um dia destes pergunto-lhe.

    Desatou uma saca de serapilheira daquelas que usam para ensacar as alfarrobas, e trazia atada com um baraço ao lado do selim da bicicleta, e foi ter com os outros ao pé do fogo. Fiquei a ver a bicicleta, mas o meu pai chamou-me logo.

    — Jaime, traz lá a garrafa e o prato dos bolos.

    Lá fui eu à cozinha buscar a garrafa da aguardente e um copinho pequenino, e um prato com bocadinhos de costa de rolão, que a minha mãe fez ontem junto à cozedura.

    Quando eu era pequeno não conseguia comer o pão mole, enrolava-se-me na boca e não o conseguia engolir, só uns dois dias depois. Uma vez a minha mãe descuidou-se e deixou a massa muito tempo a levedar, essa cozedura custámos a comê-la, ninguém gostava nem do cheiro. Na costa de rolão a minha mãe põe um tiquinho de açúcar, muito pouco, mas se não ficar bem cozida também não a consigo comer.

    O senhor Aldemiro desembrulhou as facas que trazia na saca e pôs-se a experimentá-las. Primeiro desembainha de um invólucro de cortiça uma comprida e pontiaguda. Experimenta a ponta e os dois gumes, passando a palma da mão e uma unha. Depois desata as outras duas, que vinham atadas uma à outra, ambas com os gumes enterrados num bocado de cortiça, uma de um lado e a outra do outro, e que ele diz que foram feitas de facas de corticeiro. Uma maior, que vai servir para talhar a papada, os toucinhos, as barrigas, os presuntos e as manetas, e a outra mais pequena para abrir, desmanchar, descarnar, etc. Experimenta os gumes de ambas. Tira da saca uma pedra de areia vermelha e dá um afiamento fino a cada uma.

    — Aldemiro, não matas o bicho?

    — Foi para isso que cá vim. — e ri-se com o trocadilho.

    — Deixa-te de piadas. — o meu pai também ri.

    — Venha de lá o copo.

    Bebe a aguardente de um sorvo e recusa o prato da costa.

    O meu pai abre a porta do pocilgo e chama o porco, que não vem.

    — Dez arrobas. — palpita o Constantino.

    — Eu aposto nove. — discorda o Aldemiro. — E tu, Pedro, quantas achas?

    — Eu queria que ele fosse às dez, mas o sacana amarroou. Debotou os figos, esteve aí quase uma semana a perder peso. Talvez umas nove e meia.

    E assim continuaram com os palpites enquanto o cevão não se decidia a deixar a pensão.

    Há porcos que saem bem, mas há outros que são uma carga de trabalhos para sair. Este não parecia para aí virado. O meu pai foi dentro do pocilgo com uma varinha de trovisco.

    — Não lhe batas com força senão ficam os vergões no presunto. Dá-lhe só uma pancadinha e dá-lhe um grito assim de repente.

    Agarraram-no cá fora e atiraram-no ao chão. O senhor Aldemiro atou-lhe um baraço ao focinho para evitar que ele mordesse. E levaram-no em peso, segurando pelas pernas, para cima da salgadeira de madeira, que, emborcada ao contrário, servia de bancada.

    — Jaime, vai dizer à tua mãe para trazer os tachos para aparar o sangue! Tu gostas de sangue, sacana!

    A minha mãe traz os dois tachos. Um com vinagre para não coalhar, que é para as chouriças. O outro é para cozer para o almoço.

    — Vizinha Almerinda, pegue aqui neste para as chouriças, que eu pego no outro.

    — Está bem, quando chegar diga.

    — Já chega para as chouriças. Vá, que eu ponho este.

    — Mexe bem, Olinda, para não ficar encortiçado.

    — Mexa bem, mãe! — atrevi-me eu.

    — Já a formiga tem catarro? — e riram-se todos. — Eu sei muito bem, o sangue para cozer tem que ser bem mexido, para ficar com buraquinhos.

    Confesso que não entendi aquela da formiga tem catarro, mas agora não é altura de perguntar.

    — Vamos deitá-lo para chamuscar. Vá, upa! — e tiram o porco a peso de cima da bancada improvisada e estendem-no no chão, para chamuscar.

    O meu pai vai pegando nos tojos com a forquilha, passa-os pelo lume, e vai passando o fogo sobre o porco, enquanto o Chico Joina vai raspando a pele com a parte mais áspera de um bocado de cortiça e o senhor Aldemiro com uma faca nas partes mais difíceis.

    — Acala bem aqui nas unhas da frente, Pedro! — quando acha que já é suficiente manda o meu pai afastar o tojo e torce cada uma das unhas à mão até ela descolar.

    — Faça bem a barba da sua papada, Chico! — o senhor Aldemiro fazia sempre estes trocadilhos. Era a sua papada, as suas orelhas, as suas patas.

    — Pedro, vê lá se queres mais fogo. Tu é que sabes como é que queres. — e o meu pai vem dar mais um pouco de fogo sobre a pele dos presuntos, do toucinho, da papada, das manetas, ele é que decide quando acha que é suficiente.

    Quando o meu pai achou que já estava bem chamuscado levantaram-no a peso para o pôr outra vez em cima da salgadeira e começaram a lavagem. Aí já me calhou a mim ajudar. O meu pai mergulhou o bombinho todo na cisterna, depois tapou a ponta com um rolha de cortiça, puxou a ponta do bombinho até junto do porco, tirou a rolha e a água subia da cisterna pelo tubo e escorria.

    — Vá, Jaime, faz alguma coisa para ganhares o almoço. Tapa aqui a ponta com o dedo para não estares sempre a pôr e a tirar a rolha e à medida que te pedirem vai deitando água.

    Fiquei todo concho com o meu trabalho. Era a primeira vez que o meu pai me confiava aquela tarefa. De vez em quando a minha mãe ou a vizinha Almerinda vinham com um tacho para encher do bombinho.

    Quando o meu pai deu por terminada a lavação, pegou ele no bombinho e lavou muito bem as tábuas da salgadeira, enrolhou o bombinho, e disse-me que já não era preciso mais água. Senti-me um bocadinho diminuído no meu orgulho, pois eu sabia muito bem que já não era preciso mais água. Nunca tinha feito aquilo mas todos os anos via fazerem. Normalmente era o Chico Joina que fazia, era trabalho de homem.

    Puseram uns bocados de tijolo de cada lado do porco para este se manter de costas, e o senhor Aldemiro começou a abri-lo. Começou por marcar um ponto no peito do porco com a faca de matar. Depois, de uma vez só, com a outra faca, abriu um golpe não muito profundo até à veia da urina, depois outro até ao fim da barriga. A seguir abriu outro do peito para a frente.

    — Senhor Aldemiro, este ano gostava de experimentar a desmanchar a parte da frente.

    — Ó, Chico, pois está bem, mas primeiro deixa-me fazer a moela.

    Quando o senhor Aldemiro cortou o véu que deixa as tripas à mostra eu tive que me afastar, não é por nada, é que não aguento o cheiro. Fui ver a Zündapp, estive lá um bom bocado, só voltei quando eles já estavam a talhar os presuntos e as manetas, com o meu pai a dar o risco. O meu pai é muito cioso com os presuntos e as manetas.

    Já sabia que a minha mãe me ia mandar levar uns bocadinhos de carne àquelas vizinhas de sempre, entretive-me a brincar com o borralho que tinha sobrado da fogueira. Peguei na varinha de trovisco que o meu pai tinha cortado para açoitar o porco e comecei a bater com ela nas brasas. Saltavam faúlhas, parecia os fogos que faziam na altura da festa das azinheiras. Tanto bati, que uma brasa saltou-me para dentro da bota esquerda. Agarrou-se ao peúgo de nylon de tal maneira que, enquanto não consegui descalçar a bota, queimou-me que até vi estrelas. E não queria era que ninguém desse por isso.

    Andava com todo o cuidado para não notarem que eu coxeava, de cada vez que a queimadura roçava no peúgo doía que se fartava. Como vi a vizinha Almerinda uma vez pôr azeite numa queimadura, fui à casa de despejo, pus-me em cima duma cadeira para alcançar o pote, tirei o púcaro com cuidado e pus azeite. Melhorou, mas mesmo assim doía muito.

    Quando acabaram de desmanchar o porco ainda era cedo para o almoço. Costumava ser nesta altura que a minha mãe me mandava ir levar os taleigos com as tigelas de carne à vizinhança. Embora eu estivesse desejando que ela não me mandasse, porque a queimadura ainda me doía muito, como sabia que não havia maneira de me escapar, resolvi ir perguntar-lhe se os taleigos já estavam prontos.

    — Hoje quem vai é a Carolina! — até pensei que fosse milagre de Deus, embora eu não fosse muito de rezas.

    Para disfarçar ainda protestei:

    — Mas a Carolina ainda é pequena, ela não pode com os taleigos.

    E ela:

    — De pequenino é que se torce o pepino. Ela já tem seis anos. Não leva tudo de uma vez leva em duas ou três.

    Mas o pior estava para vir:

    — Para ti tenho outro frete. — fiquei com receio. — Lembras-te daquela senhora que no verão passado ofereceu a vez à mãe na pedra do lavadouro? — aqui fiquei mesmo aflito.

    — Já sei. A senhora Henriqueta. A mãe do Carlos.

    — Essa mesmo. Sabes ir ter à casa dela?

    Tive vontade de dizer que não, mas a casa era tão fácil de encontrar. A vereda que nós levávamos quando a minha mãe ia lavar à ribeira passava mesmo na rua dela. Resolvi aguentar firme.

    — Depois do almoço vais lá levar-lhe um taleigo que eu ainda vou arranjar.

    E eu timidamente:

    — E sabe-se lá se está alguém em casa?

    E ela implacável:

    — Está lá sempre alguém, se não estiver ela está a velhota, a sogra, que essa nunca de lá sai.

    Foi o meu pior almoço de morte de porco. O pé doía. Por breves momentos ainda me passou pela cabeça dizer-lhe, ela, se calhar, nem me batia, mas eu sou muito orgulhoso.

    A dor no pé a pouco e pouco foi amainando, não sei se foi do azeite. Eles a comerem todos animados e eu a comer calado, sem apetite.

    — Jaiminho, estás tão calado, homem, estás doente ou estás a pensar na namorada? — o senhor Aldemiro sempre a meter-se comigo. Fingi que me ria.

    Depois, à medida que a dor no pé ia adormecendo, fui-me lembrando das coisas que às vezes ouvia eles contarem quando se ficava à noite ao pé do fogo. Do tempo da guerra, em que uma sardinha dava para três. Dos meses e meses a comer papas de milho. Das idas à ceifa ao Alentejo, em que ceifavam de sol a sol e comiam sopas ao almoço e ao jantar.

    O meu orgulho de homem foi crescendo, à medida que amornecia a dor no pé.

    Quando a minha mãe me deu o taleigo peguei na mota, que era uma cana que eu pegava com uma mão numa ponta e a outra na outra a fingir de guiador de bicicleta a motor. Até tinha um punho que rodava para acelerar, e as manetes como se fossem o travão e a embraiagem. Segurei o taleigo junto ao punho esquerdo para deixar a mão direita livre para acelerar e saí correndo pela vereda abaixo, a meter mudanças com o barulho que fazia a imitar o motor. Direito ao barranco das Tabuas, donde havia de subir em ziguezague até à altura donde já se havia de avistar a ribeira do Gralho lá ao longe entre os canaviais e a casa da senhora Henriqueta uns trezentos metros mais acima.

    — Tem cuidado! Não partas a tigela! — ainda ouvi a minha mãe gritar. Mas já não lhe respondi.

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